Pulseira é capaz de prever uma crise epiléptica com 30 minutos de antecedência

Ah se os pacientes com epilepsia soubessem com antecipação quando uma crise vai acontecer… Isso não é mais um sonho. Já é realidade.


Em 2013, pela primeira vez na história, um pequeno dispositivo implantado no cérebro se mostrou eficiente para prever o início de uma crise epiléptica. Os resultados na época foram divulgados pelo prestigiado periódico The Lancet Neurology.

Para quem tem crises epilépticas que não são controladas com medicações, e elas representam 30% das pessoas que sofrem dessa condição neurológica, saber com antecipação o momento de uma nova crise pode fazer toda a diferença, promovendo um estado de maior segurança e autonomia. Saber que uma crise acontecerá em alguns minutos permite que a pessoa que está dirigindo, por exemplo, encoste o carro e evite um acidente. Essa informação também pode fazer com que o indivíduo use uma medicação extra nos períodos imediatamente antes da crise.  

O dispositivo foi desenvolvido por pesquisadores americanos de Seattle (NeuroVista) para detectar atividade elétrica anormal no cérebro que precede uma crise epiléptica. Ele é implantado entre o cérebro e a caixa craniana e transmite informações para outro dispositivo colocado abaixo da pele na região do tórax. Um aparelhinho do tamanho de um iPod que pode ser adaptado ao cinto emite três diferentes sinais sonoros e luzes que informam a chance de uma nova crise: luz vermelha (risco alto), luz branca (risco moderado) e luz azul (baixo risco).

Essa tecnologia abre uma grande porta para o desenvolvimento de novos métodos para controle de crises epilépticas de ação ultrarrápida como estímulos elétricos ou até mesmo medicações. Entretanto, nem todo mundo que tem crises não controladas com medicações pode arcar com os custos ou se sujeitaria à implantação de um eletrodo cerebral. Pesquisadores da Mayo Clinic nos EUA acabam de publicar os resultados de uma experiência de sucesso com uma pulseira que avisa quando uma crise está por vir com 30 minutos de antecedência, sem a necessidade de implantação de eletrodos intracranianos. Essa pulseira usa a tecnologia de um algoritmo que prevê uma crise com dados das oscilações do ciclo circadiano de cada paciente e associado a informações de sua temperatura, frequência cardíaca, fluxo sanguíneo e atividade eletrodérmica do pulso e também de movimentos. Tudo isso através da pulseira e sem precisar implantar eletrodos no cérebro. Para quem achava que o Apple Watch era superpoderoso, hein?    

Tudo isso pode trazer mais independência àqueles que sofrem com quadros de epilepsia de difícil controle, reduzindo acidentes e o impacto psicossocial dessa condição neurológica que afeta uma em cada cem pessoas. Epilepsia não escolhe idade, raça, gênero, muito menos status socioeconômico.  


 

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e diretor clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

 

 

Confira o áudio da coluna Cuca Legal, uma parceria do ICB com a Rádio CBN Brasília: