Entender o que a epilepsia realmente significa ajuda a reduzir seu estigma


A epilepsia é a condição neurológica crônica mais comum em todo o mundo e pode acontecer em qualquer idade, raça e classe social. Estima-se que no Brasil existem três milhões de pessoas com a doença e a cada dia 300 novos casos são diagnosticados.

Apesar de ser um problema de saúde pública, são realmente poucas as pessoas que realmente sabem o que é a epilepsia. Na própria etimologia, a epilepsia foi premiada com um caráter místico, misterioso, religioso e mágico (epi=de cima e lepsem=abater) – ALGO QUE VEM DE CIMA E ABATE AS PESSOAS. Há muito tempo que não faz sentido pensar a epilepsia como um problema vindo “de cima” já que o nível de compreensão que temos hoje dos mecanismos biológicos associados à epilepsia só pode ser visto em poucas outras doenças neurológicas. Para entender o que é epilepsia, precisamos entender um pouquinho como é o que o cérebro funciona.

Quando nosso cérebro dá a ordem para nossa mão mexer, ele está disparando um impulso nervoso que nada mais é do que um impulso elétrico de baixíssima intensidade. Até chegar à mão, esse impulso viaja pelas ramificações dos neurônios e passará também por estações em que os impulsos dependem de transporte químico (sinapses) para que a informação chegue enfim aos músculos da mão. Tudo isso acontece quando resolvemos mexer a mão voluntariamente. Imagine agora um grupo de neurônios que resolve disparar esses mesmos impulsos “sem a nossa autorização”, provocando movimentos involuntários da nossa mão. E esses neurônios não ficam disparando o tempo todo de forma anormal. Pode ser uma vez ao mês, uma vez ao ano, todo dia, e quando disparam provocam o que conhecemos como crise epiléptica.

É muito comum a comparação de uma crise epiléptica com um curto circuito, um fio desencapado no cérebro. Qualquer lesão cerebral, independentemente do tamanho, é capaz de provocar esse curto circuito. Uma pessoa que come uma alface mal lavada com um ovinho de solitária escondido pode ter esse ovinho alojado numa região do cérebro que causará uma lesão do tamanho de uma semente de maçã. Esse pequeno corpo estranho no cérebro pode ser capaz de provocar uma crise epiléptica. Da mesma forma, uma criança que tem uma lesão cerebral extensa em ambos os hemisférios cerebrais, pois nasceu com uma doença genética associada a grave retardo mental, também pode vir a apresentar crises epilépticas. Essa é uma informação importante para a redução do estigma da epilepsia, pois muita gente associa a epilepsia a cérebros gravemente alterados.

E não é só uma lesão cerebral que pode provocar uma crise. Existem situações médicas que podem provocar severo desequilíbrio bioquímico do corpo, como grandes alterações nas concentrações de sódio e cálcio, situações que podem provocar um curto circuito difuso no cérebro. O mesmo pode ocorrer quando uma pessoa faz uso de uma substância neurotóxica, como é o caso da cocaína. Além disso, existem algumas condições genéticas em que o indivíduo tem uma tendência a apresentar crises epilépticas após certa idade, geralmente na infância e adolescência, e essas são situações em que o cérebro funciona normalmente, não apresenta lesões, mas os neurônios têm algumas peculiaridades que podem gerar curtos circuitos episódicos.

Podemos dizer que uma pessoa tem epilepsia quando já apresentou mais de uma crise epiléptica não provocada. Crises não provocadas são as crises que acontecem espontaneamente, sem a presença de um desequilíbrio agudo e transitório do cérebro (ex: redução na concentração de sódio). Mais recentemente reconhece-se que mesmo que a pessoa tenha apresentado uma única crise, mas na presença de alteração cerebral que pode vir a causar outras crises, essa pessoa já pode ser considerada como portadora de epilepsia.

Uma questão importante que faz com que a epilepsia seja subdiagnosticada, é o fato da maioria das pessoas acharem que crise epiléptica é igual a convulsão, ou seja, crise em que a pessoa perde a consciência, fica toda dura, roxa e se debatendo, os olhos ficam revirados, pode babar e urinar ou defecar na roupa.  A convulsão é o tipo mais dramático de crise, e significa que o cérebro passa por um curto circuito difuso. Porém, existem crises epilépticas muito mais discretas, e essas geralmente são reflexo de disparos anormais em apenas uma região do cérebro, não se espalhando para o cérebro todo, como é o caso da convulsão. Se o curto circuito acontece somente na região onde estão os neurônios que controlam o movimento da mão esquerda, a crise se manifestará como movimentos repetidos e involuntários dessa mão. Seguindo o mesmo raciocínio, uma crise pode se apresentar como uma sensação psíquica, diminuição da responsividade ao meio (“ausência”), formigamento de um lado do corpo, alucinações visuais, etc. O fato é que crises que inicialmente envolvem só uma região do cérebro podem em seguida ser propagadas para o cérebro como um todo, causando uma convulsão.

Já estamos no século 21 e ainda existe muita ignorância sobre o real significado da epilepsia. A falta de informação é a principal causa do enorme estigma e preconceito que sofrem os portadores de epilepsia, o que dificulta sobremaneira a inclusão social dessas pessoas. Em 1997 foi criada uma campanha mundial para reduzir o impacto do estigma da epilepsia, assim como para melhorar o diagnóstico e o manejo dos pacientes (Campanha Global – Epilepsia fora das sombras). Desde 2002 o Brasil é um dos países que mais tem trabalhado para a campanha graças ao trabalho do projeto ASPE (Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia – www.aspebrasil.org) que vem efetivamente tirando a epilepsia das sombras em nosso país. Em algumas áreas do conhecimento científico o Brasil está à frente de muitos países desenvolvidos, e a epilepsia é um bom exemplo disso.  Realmente, poucos países do mundo têm o nível de desenvolvimento científico que tem a epilepsia no Brasil.

Mitos e verdades sobre o derrame cerebral


Não há como prevenir o derrame cerebral.

Mito. Quando uma pessoa está tendo um derrame cerebral, um vaso sanguíneo do cérebro está sendo obstruído ou rompido naquele momento, e uma parte do cérebro está por ser destruída. O derrame cerebral é mais comum entre as pessoas que têm hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto, doenças do coração e naqueles sedentários, que fumam e usam muito álcool. Calcula-se que o indivíduo que identifica e trata um desses fatores de risco reduz seu risco de AVC pela metade. Mais importante ainda é o fato que esse mesmo indivíduo que adota hábitos de vida saudáveis é capaz de influenciar as pessoas ao seu redor a assumirem também esses bons hábitos. Saúde é mesmo contagiante!

O derrame cerebral está se tornando menos comum.

Verdade, mas só nos países ricos. Nas últimas quatro décadas (1970-2008), a incidência de derrame cerebral diminuiu em 42% em países ricos e aumentou mais de 100% em países de baixa e média renda, sendo que o Brasil se encaixa nesse último caso. Na última década, a incidência de derrame cerebral em países de baixa e média renda ultrapassou pela primeira vez a dos países ricos (20% maior).

A cidade de Joinville-SC não acompanha essa tendência dos países de baixa e média renda. Num intervalo de dez anos (1995-2006) houve uma redução relativa de um terço na incidência e mortalidade por derrame cerebral e na sua taxa de fatalidade. A redução da incidência de derrame cerebral sugere que a população recebeu mais assistência primária e melhores ações preventivas: controle de pressão alta, diabetes, colesterol, redução do tabagismo, etc. A redução da incidência na mortalidade reflete, em parte, um melhor atendimento em nível hospitalar. Os indicadores demonstrados são comparáveis aos de países ricos.

 

Derrame cerebral é coisa só de gente velha.

Mito.

O problema é mais comum entre os idosos, mas acontece também entre os jovens, muitas vezes por malfomações congênitas dos vasos sanguíneos do cérebro, problemas da coagulação, doenças do coração e por consumo de sustâncias como cigarro, cocaína e crack.

 

Todo tipo de pílula anticoncepcional ou reposição hormonal aumenta risco de derrame cerebral entre as mulheres?

Mito.  No caso da pílula anticoncepcional, as pílulas sem hormônio estradiol podem ser vistas como seguras mesmo para as mulheres que já têm uma predisposição para eventos vasculares, como é o caso da enxaqueca com aura, enxaqueca em que a dor é precedida ou acompanhada de sintomas neurológicos como flashes na visão ou alteração da sensibilidade de um lado do corpo. Já a reposição hormonal para alívio dos sintomas da menopausa, o uso prolongado desse tipo de tratamento, além de não proteger a mulher da doença coronariana, aumenta o risco de derrame cerebral, trombose nas veias e câncer de mama. Há evidências também de que não há aumento do risco de derrame cerebral quando a dose do hormônio estradiol é baixa e quando usado sob a forma de adesivos na pele.

Medicações para controlar o colesterol diminuem o risco de derrame cerebral mesmo para quem tem o colesterol normal?

Em parte, é verdade. O atual corpo de evidências aponta que indivíduos que apresentam fatores de risco vascular como o diabetes e a hipertensão arterial podem se beneficiar do uso das estatinas como prevenção de derrame cerebral, especialmente aqueles com mais de 65 anos de idade. E esse benefício existe mesmo que o indivíduo não tenha problemas com seus níveis de colesterol.

A erva Ginkgo biloba ajuda a prevenir o derrame cerebral.

Mito.

São mais de duas décadas de estudos clínicos com resultados que não justificam o uso do Ginkgo biloba para prevenção de derrame cerebral ou da Doença de Alzheimer. Há estudos em que o uso da erva já foi até associado a um maior risco de derrame cerebral.

Ter uma visão otimista da vida protege-nos do derrame cerebral.

Verdade. Uma expectativa negativa do futuro pode influenciar a saúde através de mudanças nos hábitos de vida, mas também por fatores biológicos, como alterações na atividade do sistema nervoso autônomo.

Comer peixe ajuda a prevenir o derrame cerebral.

Verdade. Consumo de peixe reduz sim o risco de derrame cerebral. O importante é que esse efeito protetor deixa de existir quando o peixe é frito.

O consumo de café faz mal à saúde e pode até aumentar o risco de derrame cerebral?

Mito. O consumo de café está associado a menores índices de mortalidade, especialmente pela redução de infarto do coração e derrame cerebral. Quatro a cinco xícaras por dia traz mais benefícios que consumos menores. 

Comer frutas e verduras todos os dias reduz o risco de derrame cerebral.

Verdade. O hábito de comer cinco porções de frutas e verduras por dia traz benefícios inequívocos à saúde dos vasos sanguíneos, com redução expressiva dos riscos de infarto do coração e derrame cerebral. Essa é a atual recomendação da Associação Americana do Coração.

 

Uma dose de álcool por dia reduz o risco de derrame cerebral.

Verdade. Nos últimos anos, uma série de estudos tem demonstrado que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Isso significa que quem bebe pouco tem menos eventos cardiovasculares do que aqueles que não bebem. Entretanto, o consumo exagerado traz mais risco. Devemos entender consumo moderado como até duas doses de bebida por dia para homens e uma dose para mulheres. As pesquisas ainda apontam que esse efeito protetor do consumo diário e moderado deixa de existir quando a pessoa exagera na dose mesmo que seja por apenas um dia no mês.

Mesmo com essas evidências, não é recomendável que indivíduos que não bebem comecem a beber. Entretanto, entre aqueles que já têm o hábito de beber, estes devem beber moderadamente e de preferência vinho tinto.

Praticar exercícios físicos e manter o peso em dia são atitudes que nos protegem das doenças do coração, mas não do derrame cerebral.

Mito.

Atividade física regular associada ao hábito de não fumar e uma dieta inteligente é capaz de reduzir pela metade o risco de derrame cerebral. Não é pouca coisa não.

A Doença de Parkinson não é só tremor nas mãos


A Doença de Parkinson é uma das mais comuns condições neurológicas. Ela afeta preferencialmente os idosos, acometendo por ano cerca de 20 indivíduos a cada 100 mil e o número de pessoas acometidas deve aumentar ainda mais com o atual processo de envelhecimento da população.

Nos últimos anos, a ciência tem entendido como nunca que a Doença de Parkinson vai muito além dos conhecidos sintomas motores classicamente associados à doença, como o tremor, rigidez e lentidão dos movimentos e instabilidade postural. Quando um indivíduo chega a apresentar esses sintomas motores, o cérebro na verdade já apresenta um estado avançado de alterações neuropatológicas. Alguns sintomas têm sido identificados vários anos antes dessa fase motora: redução do olfato, constipação e sintomas gástricos, urgência urinária, disfunção sexual, transtornos do sono, depressão e outros transtornos neuropsiquiátricos.

Já podemos contar com medicações que são capazes de melhorar os sintomas e a qualidade de vida de portadores de doenças degenerativas do cérebro, como é o caso da Doença de Parkinson. Entretanto, essas doenças são progressivas e infelizmente ainda não existem terapias capazes de mudar o curso natural do processo degenerativo. Muito tem se investido para o desenvolvimento de diagnósticos cada vez mais precoces para que quando dispusermos de terapias que efetivamente consigam frear a evolução da doença, possamos atuar antes que muitos neurônios já tenham sido perdidos. Enquanto isso não acontece, diagnóstico precoce significa tratamento precoce e melhor qualidade de vida para quem sofre da doença.

Calcula-se que já na próxima década, um quarto das mortes e casos de incapacidade nos países industrializados será causado por doenças neurológicas. Iniciativas de educação à comunidade leiga de como reconhecer essas doenças e de quando vale a pena procurar o médico são muito importantes.

O que faz uma pessoa desmaiar?


Estima-se que uma em cada duas pessoas apresentará pelo menos um episódio de perda de consciência ao longo da vida. Um colapso da circulação sanguínea do cérebro é o que explica a perda de consciência em grande parte dos casos e essa condição clínica é chamada de síncope. Quatro ou cinco segundos de fluxo sanguíneo cerebral de menor pressão são suficientes para levar à perda de consciência.

São várias as causas de síncope, mas a mais comum é chamada de síncope vasovagal. Ela acontece por um controle ineficiente do ritmo cardíaco e/ou do calibre dos vasos sanguíneos por parte do sistema nervoso em situações específicas como a posição em pé por tempo prolongado. Um quarto da população apresentará pelo menos um episódio deste tipo de síncope durante a vida e o componente genético dessa condição é inquestionável.

Os gatilhos mais comuns que provocam episódios de síncope são o estresse, tempo em pé ou sentado prolongado ou a visualização de sangue.

Desmaiar ao ver sangue não é frescura.  

O fato de desmaiar ao ver sangue revela, na verdade, uma estratégia de sobrevivência, um mecanismo de adaptação da espécie ao longo da evolução. Essa estratégia é orquestrada pelo nosso sistema nervoso automático, também conhecido por autônomo, que é formado pelos sistemas simpático e parassimpático.

Na síncope vasovagal, o sistema parassimpático é ativado de forma intensa estimulando sua principal “ferramenta de trabalho”: o nervo vago. Isso provoca dilatação dos vasos e redução do batimento cardíaco, o que diminui o fluxo de sangue para os órgãos, incluindo o cérebro.

Estudos experimentais indicam que uma região do tronco cerebral (medula caudal da linha média) é a responsável pela estimulação do nervo vago durante um episódio de síncope vasovagal.  Quando um animal perde de 30% a 40% do volume de sangue e a pressão do sangue na região do tórax cai rapidamente, sensores de pressão localizados nas artérias informam essa queda ao tronco cerebral que estimula o nervo vago que provocará o colapso circulatório. Esse colapso é útil numa situação de hemorragia, pois o sangue em pressões mais baixas, o processo de coagulação para estancar o sangramento torna-se mais eficaz. Esse sistema não é tão bem afinado, já que algumas pessoas têm esse mecanismo deflagrado mesmo numa situação de olhar para o sangue dos outros.

Vida social deve fazer parte da prescrição médica


A solidão aumenta o risco de demência, doenças cardiovasculares, sono de má qualidade, deficiência imunológica, depressão e ainda faz a pessoa morrer mais cedo. Será que esses efeitos da vida solitária podem ser explicados pela ausência de “cães de guarda”, pessoas que estimulam bons hábitos e reprimem maus hábitos? Pode até ser, mas parece que existem outras explicações.

Temos evidências que a solidão é capaz de mudar percepção, os pensamentos, a química e a estrutura do cérebro.  Os solitários são mais sensíveis a experiências ruins como quando são apresentados a imagens de pessoas com expressão facial de dor. Exames de ressonância magnética funcional demonstram que o isolamento social faz com que as áreas do sistema de recompensa cerebral sejam menos ativadas quando provocadas com estímulos sociais o que explica a menor empolgação por um hipotético encontro.

Pesquisas com ratinhos mostram que o isolamento reduz hormônios cerebrais que modulam a agressividade e diminui também o processo de mielinização que é fundamental para a plasticidade cerebral. Influencia ainda a expressão de genes ligados a comportamentos ansiosos.  Ratinhos que crescem solitários tem uma inibição no crescimento de novos neurônios em áreas associadas à comunicação e memória.  Em um modelo de derrame cerebral provocado intencionalmente, os ratinhos solitários morrem mais do que os que cresceram com os companheirinhos.

Os médicos costumam lembrar seus pacientes de qualidade de sono, dieta e atividade física. Por que não incluir nesse roteiro uma “prescrição social”?

Particularidades da enxaqueca na mulher


A enxaqueca, também conhecida como migrânea, é uma disfunção cerebral com reconhecido componente genético. Indivíduos que têm familiares com enxaqueca têm mais chance de apresentá-la, mas nem sempre. As crises de enxaqueca podem se iniciar já na infância, mas é mais frequente entre os 25 e 55 anos, a fase de vida economicamente mais produtiva do indivíduo.

A enxaqueca afeta cerca de 20% das mulheres e é três vezes mais comum que nos homens. A dor de cabeça costuma ser forte, unilateral, de caráter latejante, com piora às atividades rotineiras, frequentemente associada a náuseas, intolerância à luz, som e odores. As crises habitualmente duram entre 4 e 72 horas.

Menstruação. Cerca de 50-60% das mulheres com enxaqueca apresentam crises durante a menstruação e isso está associado ao súbito declínio dos níveis do hormônio estrogênio nessa fase do ciclo menstrual. Além disso, até 20% das mulheres com enxaqueca tem crises somente no período perimenstrual. O primeiro dia antes da menstruação é o dia em que a mulher tem mais chance de ter uma crise. Um pouco mais de 15% das mulheres com enxaqueca tem sua primeira crise na época da sua primeira menstruação.

Pílula anticoncepcional. O uso de contraceptivos orais pode dificultar o controle das crises, e pílulas com menor concentração de estrogênio podem favorecer o controle, inclusive no caso da enxaqueca menstrual.

A mulher deve evitar o uso de pílula anticoncepcional com conteúdo de estrogênio, especialmente se tiver mais de 35 anos de idade, se for portadora de fatores de risco vascular (tabagismo, hipertensão arterial) ou se tiver história pessoal ou familiar de eventos vasculares (trombose). A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece a enxaqueca com aura como categoria 4 na indicação do uso de pílula anticoncepcional com conteúdo de estrogênio, o que quer dizer que é uma condição de saúde em que os riscos do uso da pílula são inaceitáveis. Riscos, nesse caso, são os relacionados ao derrame cerebral.

O conceito de AURA é o de um aviso, um sinal de que uma crise de enxaqueca está por começar, mas também pode ocorrer já na fase da dor de cabeça. Entre 15 e 30% das pessoas que sofrem de enxaqueca podem experimentar o fenômeno, habitualmente como sintomas visuais (pontos luminosos, flashes em ziguezague, falhas no campo visual), geralmente durando menos de uma hora. A AURA pode se apresentar como formigamento de um lado do corpo, dificuldade para falar e raramente como perda de força de um lado do corpo. Algumas pessoas experimentam aura sem apresentar dor de cabeça.

Gravidez. Durante a gravidez, as crises costumam melhorar em 60-80% das mulheres. Deve-se evitar tratamentos profiláticos medicamentosos devido a potenciais consequências ao feto. Algumas medicações sintomáticas são contraindicadas na gravidez.

Uma série de estudos demonstra que mulheres com enxaqueca apresentam maior risco de apresentar hipertensão arterial na gravidez (pré-eclâmpsia) e bebês com baixo peso. Além disso, também é maior o risco de eventos vasculares nesse período entre as enxaquecosas, e aí podemos incluir derrame cerebral, infarto do coração e tromboembolismo pulmonar.

Lactação. Após o parto, as crises voltam a piorar em até 50% das mulheres no primeiro mês. Há evidências de que a amamentação confere proteção às crises nessa fase.

Menopausa.  Até 80% das mulheres apresentam melhora das crises de enxaqueca após a menopausa espontânea. Entretanto, por volta de 20% das mulheres começam a ter crises após os 50 anos, e raramente após os 60 anos. No caso da menopausa cirúrgica, há uma tendência de piora das crises de enxaqueca em dois terços das mulheres.

Já é consenso que a indicação de terapia de reposição hormonal [TRH] para a melhora de sinais e sintomas da menopausa deve ser restrita a mulheres com sintomas moderados a severos e utilizada pelo menor tempo e com mínimas doses possíveis. Essas recomendações são decorrentes do fato de que a TRH prolongada eleva o risco de câncer de mama, trombose nas veias e derrame cerebral. No caso da enxaqueca, mesmo a com aura, a TRH com doses baixas de estradiol pode ser considerada.

Enxaqueca tem cura?


Ouço frequentemente no consultório uma pergunta que costuma vir acompanhada de uma entonação pessimista: “Então doutor? Pelo jeito, enxaqueca não tem cura mesmo, não é?”  Cura? Vamos conversar melhor sobre esse assunto.

Os órgãos do nosso corpo apresentam um sistema de dor que nos serve como um alarme. No caso do cérebro de uma pessoa que tem enxaqueca, essa tarefa é realizada pelo nervo trigêmeo em conjunto com os vasos sanguíneos cerebrais que são capazes de disparar o fenômeno de dor. Essa é uma forma de entender a enxaqueca como um fenômeno de proteção do cérebro que nos avisa que algo não está bem. Tanto os neurônios como os vasos cerebrais estão envolvidos como principais protagonistas da enxaqueca, mas ainda há muito por se descobrir.

Podemos dizer que a pessoa que apresenta enxaqueca tem um cérebro que funciona um pouquinho diferente. É um cérebro que se excita com mais intensidade a diferentes estímulos externos, como é o caso da luminosidade e cheiros, ou a estímulos internos, como por exemplo, a privação de sono e o estresse psíquico. Sabemos que essa superexcitarão cerebral, condição determinada geneticamente, predispõe o indivíduo com enxaqueca à liberação de componentes neuroquímicos que podem desencadear a dor de cabeça.

Felizmente, a maioria das pessoas que tem enxaqueca apresenta crises mensais ou até menos do que isso. Quando as crises atingem uma frequência maior ou igual a três vezes por mês, ou uma frequência até menor, mas sem resposta satisfatória aos analgésicos, um tratamento profilático é indicado. Esse tratamento é feito através do uso diário de uma medicação independente da presença de dor e por um período de pelo menos seis meses.

Um tratamento de sucesso é aquele que consegue reduzir a intensidade e frequência das crises em pelo menos 75%. Pode-se perceber que a meta não é a cura, pois mesmo após o sucesso do tratamento, a pessoa pode continuar a apresentar crises esporádicas, especialmente quando enfrenta situações que já são reconhecidas como precipitantes de crises. Essas situações são muito individuais e, por isso, listas de proibições rígidas podem ser mais penosas do que benéficas ao paciente.

Enxaqueca não se cura, mas pode ser controlada. Parando para pensar, quais são as condições clínicas que realmente podem ser curadas? Talvez você não consiga enumerar mais exemplos do que o número de dedos que tem na sua mão.

Transtorno Generalizado de Ansiedade – TGA


O que é?

É uma condição psiquiátrica comum que afeta 4-7% da população. Caracteriza-se por um estado de preocupação crônica, exagerado e incontrolável associado a sintomas como agitação, tremores, suor, palpitações, fadiga, tensão muscular e dificuldades para dormir e se concentrar. É mais comum nas mulheres (7%) do que nos homens (4%) e a faixa etária mais acometida está entre os 45 e 59 anos. Fatores genéticos e ambientais estão envolvidos.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico e é feito quando os sintomas acontecem na maior parte do tempo, por pelo menos seis meses, em diferentes situações. É muito comum os pacientes darem mais atenção aos sintomas somáticos, o que leva à procura de várias especialidades médicas, o que muitas vezes dificulta o diagnóstico. Por outro lado, não se deve esquecer que condições clínicas, como o hipertiroidismo, devem ser descartadas, pois podem provocar sintomas comuns do TGA.

Além de concorrer com o bem-estar, quais são as outras repercussões desse problema?

O TGA traz prejuízos à vida social, familiar e profissional. Um estudo chegou a demonstrar que quase 40% daqueles que sofrem desse transtorno perdem seis dias por mês de trabalho, por absenteísmo ou por ineficiência mesmo. Além disso, algumas condições psiquiátricas são mais comuns em quem apresenta TGA, as chamadas comorbidades. Até 60% podem apresentar também depressão, quase 40% consomem álcool em excesso, e uns 30% têm transtorno de ansiedade social. Doenças cardíacas, respiratórias e endocrinológicas também são mais comuns em quem sofre com TGA.

Quais são as opções de tratamento?

Psicoterapia é uma das melhores armas contra o TGA, e a mais estudada é a cognitivo-comportamental. Essa técnica envolve a terapia cognitiva que promove um alinhamento das crenças do paciente à realidade, corrigindo distorções, junto à terapia comportamental, que irá promover o enfrentamento ou evitação de situações críticas.

Vários outros métodos de psicoterapia podem ser eficazes. Além disso, atividade física regular, higiene do sono, meditação e até os livros de autoajuda podem fazer a diferença.

Quando é que as medicações são necessárias?

As medicações passam a ser imprescindíveis quando o TGA passa interferir de forma significativa na vida profissional ou escolar, na vida familiar ou social. As medicações mais indicadas são os antidepressivos como a sertralina que devem ser usadas por um ano em média. Os benzodiazepínicos geralmente são usados para crises de ansiedade ou nos primeiros 30 dias de tratamento, período em que o antidepressivo ainda não alcançou seu efeito pleno.

É recomendável evitar uso de nicotina e o excesso de álcool e cafeína.

Será que a flora intestinal pode regular nosso bem estar mental?


Muitas companhias de alimentos probióticos vendem a ideia de que cultivar no intestino as bactérias certas pode ser meio caminho andado para nosso bem-estar mental.  Os cientistas eram muito céticos quanto a essa possível influência, mas hoje chegam a chamar o intestino de “segundo cérebro”.

A comunicação entre o cérebro e o sistema digestivo é conhecida há muito tempo, especialmente no que tange a influência de “cima para baixo”. Expressões como frio na barriga dizem muito sobre isso. O cérebro regula o sistema digestivo através do sistema nervoso autônomo, composto pelos sistemas simpático e parassimpático.  São eles que controlam nossos batimentos cardíacos, a respiração e a digestão.  A rede de neurônios do sistema digestivo é tão robusta que até funcionaria sem o cérebro, mas é bem mais inteligente com as comunicações de cima para baixo e de baixo para cima.

Além das fiações que ligam o cérebro ao sistema digestivo, também é bem reconhecida a influência dos hormônios e mais recentemente a flora intestinal. As bactérias do intestino podem ter influência em condições clínicas como a depressão, ansiedade e o autismo, e uma das formas de entender essa relação é o fato de que algumas bactérias são produtoras de neurotransmissores como o GABA.  E parece que o contato com bactérias durante o nascimento já faz alguma diferença. Ratinhos que nascem por parto cesárea têm mais comportamentos de ansiedade e depressão do que os nascidos por parto vaginal.

Uma pesquisa mostrou que um modelo de ratinho de comportamento ansioso e antissocial apresentava menores níveis de uma bactéria frequentemente encontrada na flora intestinal, Bacterioidis fragilis. Os pesquisadores reverteram esse comportamento dos ratinhos ao alimentarem os mesmos com a bactéria.  Eles também demonstraram que os ratinhos estressados tinham uma maior concentração no sangue de um metabólito bacteriano (4EPS) e que a injeção desse metabólito em ratinhos normais provocava o comportamento alterado.

As possibilidades de associação da flora intestinal com algumas doenças neuropsiquiátricas estão só engatinhando. Não podemos dizer muita coisa ainda, mas a neurociência está de olho.

Check-up cerebral. Quando é que isso faz sentido?


Ouço às vezes no consultório jovens dizendo coisas do tipo: “Já fiz check-up com o cardio, com o gastro, agora só falta o neuro”.  Mas afinal, que tipo de check-up as pessoas realmente devem fazer? Vale a pena fazer um check up neurológico?

Elenco a seguir três questões que frequentemente despertam a vontade de fazer um check-up neurológico.

Testes genéticos que podem demonstrar uma maior chance de desenvolver doença de Alzheimer no futuro?

Alguns genes estão associados a um maior risco de desenvolver a doença de Alzheimer, mas nem por isso faz sentido realizar testes genéticos para sabermos se nosso risco é um pouco maior do que o de outras pessoas. Os resultados não vão mudar em nada as orientações para prevenção da doença.  Esse tipo de teste ainda só é recomendado para fins de pesquisa.

Todo mundo poderia fazer exame para descartar aneurisma cerebral? Qual é o custo benefício?

Atualmente recomenda-se que indivíduos com dois ou mais parentes de primeiro grau que apresentam aneurismas cerebrais confirmados devam ser investigados, pois são esses que apresentam um risco significativamente aumentado – 50 vezes maior. Entretanto, a relação custo-benefício muda de acordo com o nível de medo que cada indivíduo tem de apresentar um aneurisma cerebral. Em algumas situações, quando a apreensão é muito grande, pode valer a pena fazer uma investigação mesmo que o indivíduo não tenha qualquer antecedente familiar.

Para a prevenção de derrame cerebral, o estudo das carótidas vale a pena?

Placas de aterosclerose das artérias carótidas são a principal fonte de derrame cerebral e a recomendação atual é que o estudo dessas artérias deve ser feito naquelas pessoas que tem pelo menos dois fatores de risco para derrame cerebral (hipertensão arterial, diabetes, tabagismo, dislipidemia, síndrome metabólica).

Resultados falso-positivos levam à ansiedade, novos exames que não raramente são invasivos e, por vezes, até cirurgias desnecessárias. A isso se dá o nome de iatrogenia que é a contramão do que o pai da medicina Hipócrates deixou como princípio ético – primum non nocere (em primeiro lugar, não fazer mal). Check-ups para pessoas assintomáticas só devem ser realizados quando existem evidências de que os benefícios são maiores que os danos. Isso não quer dizer que as pessoas devem deixar de ir ao médico ou ao dentista pelo menos uma vez ao ano, especialmente após os 40 anos.

Nos tempos de hoje, os médicos já não precisam cuidar só dos doentes, mas também das pessoas saudáveis. Estamos sempre vulneráveis a sermos rotulados como portadores de alguma disfunção ou transtorno.

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