Você, mulher, usa maquiagem para trabalhar?

Pesquisadores escoceses da Universidade Stirling publicaram recentemente dois estudos que jogam uma luz sobre esse assunto.

Eles fotografaram 40 estudantes mulheres do ensino médio com e sem maquiagem e mostraram as fotos a outros 128 estudantes homens e mulheres para que dessem uma nota para o quanto cada menina era atraente, prestigiada e dominadora. Os resultados foram os seguintes:
 
·   os homens acharam que as mulheres maquiadas tinham mais prestígio, mas as mulheres não acharam isso;
·   as mulheres acharam que as maquiadas eram mais dominadoras, mas os homens não.
 
Homens não costumam considerar uma mulher como uma ameaça física e por isso não a vê como dominadora. As mulheres, por outro lado, enxergam outra mulher maquiada como uma concorrente e, por isso, socialmente dominante.

Os homens vêem na maquiagem um sinal de prestígio e estudos anteriores já haviam demonstrado que as pessoas atraentes são vistas como mais competentes. As mulheres não ligaram maquiagem com prestígio, pois afinal o inconsciente delas trata a mulher maquiada como uma concorrente.
 
Em um segundo estudo, 48 outros voluntários do sexo feminino responderam que as mulheres maquiadas eram mais atraentes para os homens e sentiriam mais ciúmes se estivesse perto dos seus namorados.
 
Minha opinião? Seja homem, seja mulher, andar bem arrumado no ambiente de trabalho não custa nada. 

Alimentos probióticos podem ser boas armas contra a doença de Alzheimer

Pela primeira vez tivemos um estudo que demonstrou que os probióticos, como os Lactobacillus, podem melhorar o desempenho cognitivo de pacientes com a Doença de Alzheimer. Além disso, os probióticos melhoraram os níveis de colesterol e triglicérides e reduziram marcadores inflamatórios e resistência à insulina. Os resultados foram publicados pelo conceituado periódico Frontiers in Aging Neuroscience.  
 
Muitas companhias de alimentos probióticos vendem a ideia de que cultivar no intestino as bactérias certas pode ser meio caminho andado para nosso bem estar mental.  Os cientistas eram muito céticos quanto a essa possível influência, mas hoje chegam a chamar o intestino de “segundo cérebro”.
 
A comunicação entre o cérebro e o sistema digestivo é conhecida há muito tempo, especialmente no que tange a influência de “cima para baixo”. Expressões como frio na barriga dizem muito sobre isso. O cérebro regula o sistema digestivo através do sistema nervoso autônomo, composto pelos sistemas simpático e parassimpático.  São eles que controlam nossos batimentos cardíacos, a respiração e a digestão.  A rede de neurônios do sistema digestivo é tão robusta que até funcionaria sem o cérebro, mas é bem mais inteligente com as comunicações de cima para baixo e de baixo para cima.
 
Além das fiações que ligam o cérebro ao sistema digestivo, também é bem reconhecida a influencia dos hormônios e mais recentemente a flora intestinal. As bactérias do intestino podem ter influência em condições clínicas como a depressão, ansiedade e o autismo, e uma das formas de entender essa relação é o fato de que algumas bactérias são produtoras de neurotransmissores como a sertralina e o GABA.  E parece que o contato com bactérias durante o nascimento já faz alguma diferença. Ratinhos que nascem por parto cesárea têm mais comportamentos de ansiedade e depressão do que os nascidos por parto vaginal.
 
As possibilidades de associação da flora intestinal com algumas doenças neuropsiquiátricas estão só engatinhando e o presente estudo confirma em humanos o que já se sabia em ratinhos. Será que crianças e adultos sem doença cerebral podem ter o mesmo beneficio?

Redes sociais virtuais fazem bem à saúde. Use com moderação.

Há pelo menos três décadas sabe-se que a vida social de um indivíduo tem impacto em sua longevidade. Essa sociabilidade hoje é vista hoje como um fator até mais protetor à nossa saúde que a atividade física e o peso em dia. Por outro lado, a baixa sociabilidade tem um efeito negativo comparável ao tabagismo.
 
Um estudo publicado este mês pelo prestigiado periódico PNAS mostrou que isso também vale para a sociabilidade virtual. Doze milhões de americanos usuários do Facebook, nascidos entre 1945 e 1989, foram acompanhados por seis meses. Os resultados mostraram que a interação online confere maior longevidade quando moderada e ainda mais quando complementada por interações off-line. O exagero das interações virtuais teve efeito negativo. 
 
A análise dos detalhes da vida virtual dos participantes mostrou que viviam mais aqueles que se encaixavam entre os 50% que tinham mais amigos no Facebook. O mesmo efeito positivo foi encontrado entre os que postavam mais fotos, o que pode estar associado a uma vida social em carne e osso mais movimentada. 
 
O número de amizades aceitas no período do estudo esteve associado a uma maior longevidade, o que nos faz pensar que a popularidade pode ser boa para saúde. Já o número de solicitações de amizade efetuadas pelo usuário não teve relação positiva ou negativa. Esse último resultado foi desapontador para os cientistas, pois o estímulo de busca de novas amizades virtuais poderia ser uma estratégia de promoção da saúde.
 
E não adianta ficar contando o número de “likes” de cada post, pois eles não tiveram efeito algum nessa pesquisa.

Meu ciclo sono-vígília é de lua. E o seu também.

Algumas pessoas acusam a lua como culpada por uma má noite de sono e até por mudanças no estado mental. Será que isso não passa de um mito? Para entender melhor essa questão, pesquisadores de vários pontos do mundo estudaram o perfil de sono das crianças e sua relação com as fases da lua. Os resultados foram publicados recentemente pelo periódico Frontiers in Pediatrics.

O estudo foi realizado com crianças, já que elas são menos sujeitas a fatores que sabidamente influenciam o padrão do sono como o estresse. Quase seis mil crianças nos cinco continentes foram acompanhadas por 28 semanas e passaram por uma avaliação que incluía dados sociodemográficos, duração do sono noturno, índice de massa corporal e nível de atividade física.

As fases da lua foram categorizadas em três tipos: nova, cheia e “meia lua” que representava os quartos crescente e minguante. Os resultados mostraram que na lua cheia as crianças dormiam cinco minutos menos do que na lua nova. Não foi possível detectar outras mudanças de comportamento das crianças nas diferentes fases da lua. Cinco minutos a menos de sono não parece ser relevante para a saúde das crianças e muito menos para a dos adultos.

Outro estudo publicado em 2006 pelo prestigiado periódico Current Biology já apontava que temos uma tendência a dormir menos no período da lua cheia.

Pesquisadores da Universidade de Basel na Suíça estudaram o padrão de sono e níveis hormonais de 33 adultos em um laboratório de sono. A proposta inicial do estudo não foi a de avaliar a influência da lua sobre o sono, mas anos depois, numa mesa de bar e na lua cheia, os pesquisadores tiveram o insight de fazer uma avaliação retrospectiva para ver se a fase da lua tinha alguma influência nos resultados.

Dito e feito. A análise apontou que na lua cheia os voluntários tinham o sono mais superficial, demoravam cinco minutos a mais para pegar no sono e dormiam cerca de 20 minutos a menos.  Além disso, na lua cheia os níveis do hormônio melatonina mostraram-se reduzidos.

Sabemos que a concentração da melatonina varia com o grau de luminosidade, mas o interessante é que o efeito lua cheia foi independente da luminosidade do ambiente, já que o estudo foi todo conduzido entre quatro paredes. A melhor explicação é um ritmo biológico circalunar que já foi demonstrado em animais marinhos.  Isso pode ter representado uma vantagem evolutiva ao fazer com que caçadores e coletores dormissem menos para aproveitar a luminosidade generosa da lua cheia.

Mas o efeito da lua cheia no comportamento humano ainda tem muitos mistérios. Quando eu fazia residência médica em neurologia eu não levava muito a sério quando alguns pacientes com epilepsia me falavam que na lua cheia as crises eram mais comuns. Alguns anos depois o periódico da Academia Americana de Neurologia publicou uma pesquisa apontando que as observações dos “supersticiosos” estavam certas.

Geração Z e sua hiperconectividade

Nunca antes na história tivemos uma sociedade tão conectada e as plataformas de redes sociais têm contribuído muito para isso. Entretanto, identificamos excessos de “conexão”, especialmente entre os adolescentes. Essa hiperconectividade é um tema que os pais devem ficar muito atentos no dia a dia, pois ela não tem nada de inocente.

Vida social é uma ferramenta fundamental para nosso estado de felicidade e até mesmo de saúde. Mas será que os amigos virtuais têm esse mesmo poder? Parece que não. Pesquisas têm revelado uma associação entre o tempo gasto no Facebook e sintomas depressivos. Aí vem a velha pergunta de ovo ou galinha? A resposta mais provável é que o excesso de tempo nas redes sociais possa ser tanto a causa como conseqüência dessa maior freqüência de sintomas psiquiátricos.

Causa? Podemos pensar que uma pessoa exagerada e compulsiva tem problemas no controle de seus impulsos. E essa dificuldade em controlar os impulsos pode ter reflexos em varias dimensões da sua vida. E os adolescentes dão goleada quando se fala em impulsividade. Um estudo conduzido nos EUA mostrou que eles trocam uma média de 109 mensagens diárias pelo celular enquanto os adultos ficam com uma média de dez mensagens por dia.

Conseqüência? Redes sociais provocando mal estar psíquico? Uma forma de explicar essa ligação é o efeito comparativo com os outros “amigos” que só expõem os louros do cotidiano e isso pode fazer com que a pessoa sinta que tem um projeto de vida mal-sucedido. Além disso, a prática virtual exagerada pode reduzir os encontros em carne e osso, o que pode desestabilizar o equilíbrio psíquico.

Se esses fatores são relevantes para um adulto, imagine só para o cérebro de um adolescente que ainda está em formação! Alguns deles têm sinais típicos de dependência quando afastados do seu vício eletrônico. Pesquisas mostram que meninos e meninas digitam com a mesma frequência nas redes sociais, mas os exageros acontecem mais com as meninas. E esse exagero está associado a um menor desempenho acadêmico, mais sintomas depressivos, maior exposição ao álcool e outras drogas e também experiência sexual mais precoce.

Ficção literária aumenta o grau de empatia das pessoas

A psicóloga social Emanuele Castano, junto ao seu aluno de PhD David Kidd, publicaram há três anos na revista Science os resultados de suas pesquisas que demonstram o quanto que uma boa leitura é capaz de estimular as habilidades sociais.

Voluntários eram solicitados a ler trechos de diferentes gêneros: não ficção, ficção popular (romance, aventura), ficção literária (premiados), Em seguida faziam testes que avaliavam a capacidade de entender o que o outro está sentindo.

Além de mostrar que histórias de ficção aumentam a percepção das emoções de outras pessoas, a pesquisa ainda evidenciou que a qualidade da literatura também faz diferença. Os textos literários produziram maior efeito, apesar dos textos populares terem sido os mais apreciados pelos voluntários.
Neste último mês os mesmos pesquisadores confirmaram esses resultados de uma forma diferente. O teste de empatia foi aplicado a cerca de dois mil voluntários, mas dessa vez associado a uma tarefa em que tinham que reconhecer autores de ficção literária de uma lista de 130 nomes. Aqueles que reconheciam mais autores foram os que tinham também maior pontuação nos testes de empatia.
Os pesquisadores acreditam que obras de ficção estimulam a imaginação e o pensamento criativo, incentivando a sensibilidade necessária para a compreensão da complexidade emocional dos personagens. Assim como na vida real, os mundos retratados na ficção literária são repletos de indivíduos cuja intimidade raramente é revelada e, por isso, exigem uma investigação emocional. Na ficção popular, os personagens são mais estereotipados em suas descrições, mais previsíveis, e o que importa mesmo é o enredo.
É notório que os resultados dessas pesquisas devem ser levados em consideração na escolha da grade curricular dos estudantes. Já existem até ensaios para incrementar a empatia de médicos através da literatura assim como para melhorar o comportamento de detentos.

Entender o que a epilepsia realmente significa ajuda a reduzir seu estigma


A epilepsia é a condição neurológica crônica mais comum em todo o mundo e pode acontecer em qualquer idade, raça e classe social. Estima-se que no Brasil existem três milhões de pessoas com a doença e a cada dia 300 novos casos são diagnosticados.

Apesar de ser um problema de saúde pública, são realmente poucas as pessoas que realmente sabem o que é a epilepsia. Na própria etimologia, a epilepsia foi premiada com um caráter místico, misterioso, religioso e mágico (epi=de cima e lepsem=abater) – ALGO QUE VEM DE CIMA E ABATE AS PESSOAS. Há muito tempo que não faz sentido pensar a epilepsia como um problema vindo “de cima” já que o nível de compreensão que temos hoje dos mecanismos biológicos associados à epilepsia só pode ser visto em poucas outras doenças neurológicas. Para entender o que é epilepsia, precisamos entender um pouquinho como é o que o cérebro funciona.

Quando nosso cérebro dá a ordem para nossa mão mexer, ele está disparando um impulso nervoso que nada mais é do que um impulso elétrico de baixíssima intensidade. Até chegar à mão, esse impulso viaja pelas ramificações dos neurônios e passará também por estações em que os impulsos dependem de transporte químico (sinapses) para que a informação chegue enfim aos músculos da mão. Tudo isso acontece quando resolvemos mexer a mão voluntariamente. Imagine agora um grupo de neurônios que resolve disparar esses mesmos impulsos “sem a nossa autorização”, provocando movimentos involuntários da nossa mão. E esses neurônios não ficam disparando o tempo todo de forma anormal. Pode ser uma vez ao mês, uma vez ao ano, todo dia, e quando disparam provocam o que conhecemos como crise epiléptica.

É muito comum a comparação de uma crise epiléptica com um curto circuito, um fio desencapado no cérebro. Qualquer lesão cerebral, independentemente do tamanho, é capaz de provocar esse curto circuito. Uma pessoa que come uma alface mal lavada com um ovinho de solitária escondido pode ter esse ovinho alojado numa região do cérebro que causará uma lesão do tamanho de uma semente de maçã. Esse pequeno corpo estranho no cérebro pode ser capaz de provocar uma crise epiléptica. Da mesma forma, uma criança que tem uma lesão cerebral extensa em ambos os hemisférios cerebrais, pois nasceu com uma doença genética associada a grave retardo mental, também pode vir a apresentar crises epilépticas. Essa é uma informação importante para a redução do estigma da epilepsia, pois muita gente associa a epilepsia a cérebros gravemente alterados.

E não é só uma lesão cerebral que pode provocar uma crise. Existem situações médicas que podem provocar severo desequilíbrio bioquímico do corpo, como grandes alterações nas concentrações de sódio e cálcio, situações que podem provocar um curto circuito difuso no cérebro. O mesmo pode ocorrer quando uma pessoa faz uso de uma substância neurotóxica, como é o caso da cocaína. Além disso, existem algumas condições genéticas em que o indivíduo tem uma tendência a apresentar crises epilépticas após certa idade, geralmente na infância e adolescência, e essas são situações em que o cérebro funciona normalmente, não apresenta lesões, mas os neurônios têm algumas peculiaridades que podem gerar curtos circuitos episódicos.

Podemos dizer que uma pessoa tem epilepsia quando já apresentou mais de uma crise epiléptica não provocada. Crises não provocadas são as crises que acontecem espontaneamente, sem a presença de um desequilíbrio agudo e transitório do cérebro (ex: redução na concentração de sódio). Mais recentemente reconhece-se que mesmo que a pessoa tenha apresentado uma única crise, mas na presença de alteração cerebral que pode vir a causar outras crises, essa pessoa já pode ser considerada como portadora de epilepsia.

Uma questão importante que faz com que a epilepsia seja subdiagnosticada, é o fato da maioria das pessoas acharem que crise epiléptica é igual a convulsão, ou seja, crise em que a pessoa perde a consciência, fica toda dura, roxa e se debatendo, os olhos ficam revirados, pode babar e urinar ou defecar na roupa.  A convulsão é o tipo mais dramático de crise, e significa que o cérebro passa por um curto circuito difuso. Porém, existem crises epilépticas muito mais discretas, e essas geralmente são reflexo de disparos anormais em apenas uma região do cérebro, não se espalhando para o cérebro todo, como é o caso da convulsão. Se o curto circuito acontece somente na região onde estão os neurônios que controlam o movimento da mão esquerda, a crise se manifestará como movimentos repetidos e involuntários dessa mão. Seguindo o mesmo raciocínio, uma crise pode se apresentar como uma sensação psíquica, diminuição da responsividade ao meio (“ausência”), formigamento de um lado do corpo, alucinações visuais, etc. O fato é que crises que inicialmente envolvem só uma região do cérebro podem em seguida ser propagadas para o cérebro como um todo, causando uma convulsão.

Já estamos no século 21 e ainda existe muita ignorância sobre o real significado da epilepsia. A falta de informação é a principal causa do enorme estigma e preconceito que sofrem os portadores de epilepsia, o que dificulta sobremaneira a inclusão social dessas pessoas. Em 1997 foi criada uma campanha mundial para reduzir o impacto do estigma da epilepsia, assim como para melhorar o diagnóstico e o manejo dos pacientes (Campanha Global – Epilepsia fora das sombras). Desde 2002 o Brasil é um dos países que mais tem trabalhado para a campanha graças ao trabalho do projeto ASPE (Assistência à Saúde de Pacientes com Epilepsia – www.aspebrasil.org) que vem efetivamente tirando a epilepsia das sombras em nosso país. Em algumas áreas do conhecimento científico o Brasil está à frente de muitos países desenvolvidos, e a epilepsia é um bom exemplo disso.  Realmente, poucos países do mundo têm o nível de desenvolvimento científico que tem a epilepsia no Brasil.

Mitos e verdades sobre o derrame cerebral


Não há como prevenir o derrame cerebral.

Mito. Quando uma pessoa está tendo um derrame cerebral, um vaso sanguíneo do cérebro está sendo obstruído ou rompido naquele momento, e uma parte do cérebro está por ser destruída. O derrame cerebral é mais comum entre as pessoas que têm hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto, doenças do coração e naqueles sedentários, que fumam e usam muito álcool. Calcula-se que o indivíduo que identifica e trata um desses fatores de risco reduz seu risco de AVC pela metade. Mais importante ainda é o fato que esse mesmo indivíduo que adota hábitos de vida saudáveis é capaz de influenciar as pessoas ao seu redor a assumirem também esses bons hábitos. Saúde é mesmo contagiante!

O derrame cerebral está se tornando menos comum.

Verdade, mas só nos países ricos. Nas últimas quatro décadas (1970-2008), a incidência de derrame cerebral diminuiu em 42% em países ricos e aumentou mais de 100% em países de baixa e média renda, sendo que o Brasil se encaixa nesse último caso. Na última década, a incidência de derrame cerebral em países de baixa e média renda ultrapassou pela primeira vez a dos países ricos (20% maior).

A cidade de Joinville-SC não acompanha essa tendência dos países de baixa e média renda. Num intervalo de dez anos (1995-2006) houve uma redução relativa de um terço na incidência e mortalidade por derrame cerebral e na sua taxa de fatalidade. A redução da incidência de derrame cerebral sugere que a população recebeu mais assistência primária e melhores ações preventivas: controle de pressão alta, diabetes, colesterol, redução do tabagismo, etc. A redução da incidência na mortalidade reflete, em parte, um melhor atendimento em nível hospitalar. Os indicadores demonstrados são comparáveis aos de países ricos.

 

Derrame cerebral é coisa só de gente velha.

Mito.

O problema é mais comum entre os idosos, mas acontece também entre os jovens, muitas vezes por malfomações congênitas dos vasos sanguíneos do cérebro, problemas da coagulação, doenças do coração e por consumo de sustâncias como cigarro, cocaína e crack.

 

Todo tipo de pílula anticoncepcional ou reposição hormonal aumenta risco de derrame cerebral entre as mulheres?

Mito.  No caso da pílula anticoncepcional, as pílulas sem hormônio estradiol podem ser vistas como seguras mesmo para as mulheres que já têm uma predisposição para eventos vasculares, como é o caso da enxaqueca com aura, enxaqueca em que a dor é precedida ou acompanhada de sintomas neurológicos como flashes na visão ou alteração da sensibilidade de um lado do corpo. Já a reposição hormonal para alívio dos sintomas da menopausa, o uso prolongado desse tipo de tratamento, além de não proteger a mulher da doença coronariana, aumenta o risco de derrame cerebral, trombose nas veias e câncer de mama. Há evidências também de que não há aumento do risco de derrame cerebral quando a dose do hormônio estradiol é baixa e quando usado sob a forma de adesivos na pele.

Medicações para controlar o colesterol diminuem o risco de derrame cerebral mesmo para quem tem o colesterol normal?

Em parte, é verdade. O atual corpo de evidências aponta que indivíduos que apresentam fatores de risco vascular como o diabetes e a hipertensão arterial podem se beneficiar do uso das estatinas como prevenção de derrame cerebral, especialmente aqueles com mais de 65 anos de idade. E esse benefício existe mesmo que o indivíduo não tenha problemas com seus níveis de colesterol.

A erva Ginkgo biloba ajuda a prevenir o derrame cerebral.

Mito.

São mais de duas décadas de estudos clínicos com resultados que não justificam o uso do Ginkgo biloba para prevenção de derrame cerebral ou da Doença de Alzheimer. Há estudos em que o uso da erva já foi até associado a um maior risco de derrame cerebral.

Ter uma visão otimista da vida protege-nos do derrame cerebral.

Verdade. Uma expectativa negativa do futuro pode influenciar a saúde através de mudanças nos hábitos de vida, mas também por fatores biológicos, como alterações na atividade do sistema nervoso autônomo.

Comer peixe ajuda a prevenir o derrame cerebral.

Verdade. Consumo de peixe reduz sim o risco de derrame cerebral. O importante é que esse efeito protetor deixa de existir quando o peixe é frito.

O consumo de café faz mal à saúde e pode até aumentar o risco de derrame cerebral?

Mito. O consumo de café está associado a menores índices de mortalidade, especialmente pela redução de infarto do coração e derrame cerebral. Quatro a cinco xícaras por dia traz mais benefícios que consumos menores. 

Comer frutas e verduras todos os dias reduz o risco de derrame cerebral.

Verdade. O hábito de comer cinco porções de frutas e verduras por dia traz benefícios inequívocos à saúde dos vasos sanguíneos, com redução expressiva dos riscos de infarto do coração e derrame cerebral. Essa é a atual recomendação da Associação Americana do Coração.

 

Uma dose de álcool por dia reduz o risco de derrame cerebral.

Verdade. Nos últimos anos, uma série de estudos tem demonstrado que o consumo moderado de álcool reduz o risco de doenças cardiovasculares, incluindo o infarto do coração e o derrame cerebral. Isso significa que quem bebe pouco tem menos eventos cardiovasculares do que aqueles que não bebem. Entretanto, o consumo exagerado traz mais risco. Devemos entender consumo moderado como até duas doses de bebida por dia para homens e uma dose para mulheres. As pesquisas ainda apontam que esse efeito protetor do consumo diário e moderado deixa de existir quando a pessoa exagera na dose mesmo que seja por apenas um dia no mês.

Mesmo com essas evidências, não é recomendável que indivíduos que não bebem comecem a beber. Entretanto, entre aqueles que já têm o hábito de beber, estes devem beber moderadamente e de preferência vinho tinto.

Praticar exercícios físicos e manter o peso em dia são atitudes que nos protegem das doenças do coração, mas não do derrame cerebral.

Mito.

Atividade física regular associada ao hábito de não fumar e uma dieta inteligente é capaz de reduzir pela metade o risco de derrame cerebral. Não é pouca coisa não.

A Doença de Parkinson não é só tremor nas mãos


A Doença de Parkinson é uma das mais comuns condições neurológicas. Ela afeta preferencialmente os idosos, acometendo por ano cerca de 20 indivíduos a cada 100 mil e o número de pessoas acometidas deve aumentar ainda mais com o atual processo de envelhecimento da população.

Nos últimos anos, a ciência tem entendido como nunca que a Doença de Parkinson vai muito além dos conhecidos sintomas motores classicamente associados à doença, como o tremor, rigidez e lentidão dos movimentos e instabilidade postural. Quando um indivíduo chega a apresentar esses sintomas motores, o cérebro na verdade já apresenta um estado avançado de alterações neuropatológicas. Alguns sintomas têm sido identificados vários anos antes dessa fase motora: redução do olfato, constipação e sintomas gástricos, urgência urinária, disfunção sexual, transtornos do sono, depressão e outros transtornos neuropsiquiátricos.

Já podemos contar com medicações que são capazes de melhorar os sintomas e a qualidade de vida de portadores de doenças degenerativas do cérebro, como é o caso da Doença de Parkinson. Entretanto, essas doenças são progressivas e infelizmente ainda não existem terapias capazes de mudar o curso natural do processo degenerativo. Muito tem se investido para o desenvolvimento de diagnósticos cada vez mais precoces para que quando dispusermos de terapias que efetivamente consigam frear a evolução da doença, possamos atuar antes que muitos neurônios já tenham sido perdidos. Enquanto isso não acontece, diagnóstico precoce significa tratamento precoce e melhor qualidade de vida para quem sofre da doença.

Calcula-se que já na próxima década, um quarto das mortes e casos de incapacidade nos países industrializados será causado por doenças neurológicas. Iniciativas de educação à comunidade leiga de como reconhecer essas doenças e de quando vale a pena procurar o médico são muito importantes.

O que faz uma pessoa desmaiar?


Estima-se que uma em cada duas pessoas apresentará pelo menos um episódio de perda de consciência ao longo da vida. Um colapso da circulação sanguínea do cérebro é o que explica a perda de consciência em grande parte dos casos e essa condição clínica é chamada de síncope. Quatro ou cinco segundos de fluxo sanguíneo cerebral de menor pressão são suficientes para levar à perda de consciência.

São várias as causas de síncope, mas a mais comum é chamada de síncope vasovagal. Ela acontece por um controle ineficiente do ritmo cardíaco e/ou do calibre dos vasos sanguíneos por parte do sistema nervoso em situações específicas como a posição em pé por tempo prolongado. Um quarto da população apresentará pelo menos um episódio deste tipo de síncope durante a vida e o componente genético dessa condição é inquestionável.

Os gatilhos mais comuns que provocam episódios de síncope são o estresse, tempo em pé ou sentado prolongado ou a visualização de sangue.

Desmaiar ao ver sangue não é frescura.  

O fato de desmaiar ao ver sangue revela, na verdade, uma estratégia de sobrevivência, um mecanismo de adaptação da espécie ao longo da evolução. Essa estratégia é orquestrada pelo nosso sistema nervoso automático, também conhecido por autônomo, que é formado pelos sistemas simpático e parassimpático.

Na síncope vasovagal, o sistema parassimpático é ativado de forma intensa estimulando sua principal “ferramenta de trabalho”: o nervo vago. Isso provoca dilatação dos vasos e redução do batimento cardíaco, o que diminui o fluxo de sangue para os órgãos, incluindo o cérebro.

Estudos experimentais indicam que uma região do tronco cerebral (medula caudal da linha média) é a responsável pela estimulação do nervo vago durante um episódio de síncope vasovagal.  Quando um animal perde de 30% a 40% do volume de sangue e a pressão do sangue na região do tórax cai rapidamente, sensores de pressão localizados nas artérias informam essa queda ao tronco cerebral que estimula o nervo vago que provocará o colapso circulatório. Esse colapso é útil numa situação de hemorragia, pois o sangue em pressões mais baixas, o processo de coagulação para estancar o sangramento torna-se mais eficaz. Esse sistema não é tão bem afinado, já que algumas pessoas têm esse mecanismo deflagrado mesmo numa situação de olhar para o sangue dos outros.

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