Qual a cor da sua inveja? Branca ou marrom?

Situações competitivas podem gerar sentimentos positivos de identificação com outros membros do grupo capazes de gerar alianças, mas podem também estimular sentimentos como a inveja e até mesmo satisfação com o infortúnio dos outros. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer dizia que sentir inveja é humano, gozar do infortúnio dos outros é diabólico.

Atualmente reconhece-se que há dois tipos de inveja: uma benigna e outra maliciosa. No caso da inveja benigna, o que é invejado é uma coisa, como o carrão novo do vizinho. Essa inveja também é conhecida como inveja branca. No caso da inveja maliciosa, a inveja é de uma pessoa e não da coisa em si. Essa é a inveja marrom.

Temos evidências de que quando a inveja é mais focada na pessoa do que na coisa, ela vem frequentemente acompanhada do sentimento que a língua alemã chama de “schadenfreude” – prazer pelo infortúnio dos outros. Nesse caso, a depender da situação, há uma forte presença de desumanização, rivalidade ou senso de justiça social.

Já foi demonstrado que algumas regiões cerebrais são fortemente envolvidas no processamento desses sentimentos. Pesquisadores israelenses da Universidade de Haifa mostraram que indivíduos que apresentam lesões cerebrais nas regiões frontal e parietal têm reduzida capacidade de sentir inveja ou prazer com o infortúnio alheio em testes psicológicos que simulam esses sentimentos.

Pesquisadores japoneses apontaram que as mesmas áreas cerebrais ativadas no processo de dor física são ativadas também em testes psicológicos que envolvem a “dor” de assistir o sucesso do outro. Mostraram ainda que testes psicológicos que envolvem a percepção do infortúnio alheio ativam o mesmo circuito de recompensa cerebral que é ativado quando experimentamos situações prazerosas como comer uma barra de chocolate. Ambientes de trabalho competitivos são palcos propícios para a expressão desses sentimentos que podem ser vistos como o “dark side” da experiência humana. Uma dica valiosa para um líder de equipe é priorizar incentivos para o grupo e não para os indivíduos isoladamente.

O comportamento animal é recheado de atributos competitivos como a disputa por território, parceiros sexuais e alimentos. A neurociência tem-nos mostrado que não somos tão diferentes assim e cada um de nós carrega diferentes graus desses instintos arcaicos. Desde que bem dosados, ciúme, interesse pela vida alheia, inveja e prazer com o infortúnio dos outros, não devem ser vistos como sentimentos que devem ser reprimidos a todo custo. Todos eles fazem parte de um grande repertório que colaborou sobremaneira para o sucesso da espécie, e ainda deve colaborar em certo grau.

Por Dr. Ricardo Teixeira

 

 

Conheça os cães doutores. Eles percebem doenças só pelo cheiro

O reconhecimento de odores específicos exalados por pessoas que sofrem de uma determinada doença é descrito desde a época de Hipócrates na Grécia antiga. Eu mesmo tive a sorte e a honra de ter sido aluno na graduação em medicina na UNB do incrível Sir Philip Davis Marsden e, na beira do leito, ele me pedia para cheirar os pacientes e dar minha impressão. E o Sir aqui é Sir mesmo: Cavaleiro de sua Majestade, honraria concedida pela Rainha da Inglaterra pelo conjunto de sua obra.

Condições clínicas como diabetes descompensado, insuficiência renal ou hepática não eram difíceis de serem identificados pelo cheiro, mas muitos diagnósticos, especialmente os infecciosos, só mesmo o Sir Philip Marsden e, muito provavelmente, os cães. Cães?

Cães treinados para identificação de odores exalados por indivíduos nas fases precoces de doenças têm mostrado resultados positivos em alguns tipos de câncer. O exame de sangue oculto nas fezes é capaz de detectar câncer colorretal em 44% dos pacientes, mas os cães o detectam pelo cheiro da respiração do paciente em 91% dos casos. Componentes voláteis numa série de doenças têm sido isolados e, no futuro, “narizes eletrônicos” poderão fazer parte dos check-ups médicos. O interessante é que esses narizes eletrônicos não chegaram perto ainda da sensibilidade do olfato canino. Enquanto a tecnologia só funciona com uma concentração mínima de componentes voláteis da ordem de 100 a 400, os cães só precisam de 0.001.

E os cães não param de marcar golaços. Há poucos dias, a revista Scientific Reports publicou os resultados de uma pesquisa que mostrou que cães treinados a sentir o odor de pacientes portadores de epilepsia são capazes de identificar o “cheiro de crise” de outros portadores de epilepsia totalmente novos para os cães. E essa capacidade de identificação foi demostrada em nada mais, nada menos, que 100 % dos cães envolvidos no estudo. Dentre os estudos de identificação de doenças por cães, esse foi o que teve resultados mais espetaculares.

A pesquisa não foi feita para demonstrar antecipação de crises, mas estudos mais frágeis já demonstraram essa capacidade dos cães, não só em crises epilépticas, como também na enxaqueca. O fato é que os resultados deixam claro que existe sim um odor característico associado a crises epilépticas e novos estudos serão feitos para identificar que componente é esse e se os cães são capazes de percebê-los antes das crises se instalarem.

 
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